Evoé! Evoé! Evoé! clamava José Celso Martinez Corrêa ao saudar, com uma taça de vinho tinto, o início do Seminário Internacional do Fórum da Cultura Digital Brasileira.

Baco e outros deuses e orixás atenderam ao chamado e estiveram conosco nos últimos quatro dias. Circularam pelos galpões da Cinemateca Brasileira. Fizeram fervilhar nossos cérebros. Facilitaram a conexão e iluminaram os contatos, recados, carinhos, pensamentos e ideias que trocamos. Todo mundo junto e remixado. Seres humanos resignificados. Com música. Muita música.

Vídeos, fotos e textos foram disparados rede afora e incluíram milhares de pessoas nas conversas dos auditórios. Geraram terabytes de informações. Um importante acervo multimídia sobre o processo de construção de uma política pública para a cultura digital brasileira nos próximos anos.

O Fórum deixa importantes definições e uma agenda política para o MinC, com tarefas hercúleas como o marco legal da Internet; a discussão da Lei do direito autoral; um plano nacional de banda larga e outro para digitalização de acervos.

No encerramento do “espaço físico do ciberespaço”, como Cláudio Prado nomeou o Fórum, o Ministro da Cultura usou todos os meios disponíveis, mostrou as meias e falou mal da televisão aberta. Também deu o mote para o melhor trocadilho do evento, outro de Cláudio MacLuhan Prado, super tweetado no mundo virtual: “a meia é a mensagem”.

O Ministro, a meia, os meios, a mídia, a massa, a maldita televisão.

O que fica é a memória. Aquilo que é preciso organizar e preservar para as futuras gerações. A prova irrefutável do processo participativo de construção da política que queremos para a cultura digital. Não podemos permitir que se perca na pressa, ou que seja engolida pela pressão eleitoral.

O conceito de Cultura Digital ainda não está inteiramente consolidado e reconhecido, seja no ambiente acadêmico ou no social. Uma das missões dos participantes do Fórum da Cultura Digital Brasileira é debater esse conceito como fundamento para políticas públicas, que serão, necessariamente,  inclusivas. Tudo muito bacana, moderno, interativo.

Minha amiga Jane veio comigo a São Paulo para o Seminário Internacional do Fórum da Cultura Digital Brasileira. Chegamos com grande expectativa, já que o encontro acontece nas dependências da Cinemateca Brasileira, um dos ícones do setor audiovisual no país.

Estamos interessadas, principalmente no eixo temático da Memória, um dos cinco que aglutinam as discussões. Os outros, também muito instigantes, são: Infraestrutura da Cultura Digital,  Arte Digital, Economia da Cultura Digital e Comunicação Digital.

O debate sobre Infraestrutura, no primeiro dia, foi quente e a catarse que abriu oficialmente o Seminário foi protagonizada pelo autor, ator e diretor de teatro Zé Celso Martinez Corrêa. Inesquecível. Tudo isso só aumentou nossa ansiedade com o Seminário de Memória desta quinta-feira.

Angela Bettencourt, da Fundação Biblioteca Nacional e Edson Gomi, da Brasiliana, biblioteca digital da USP, falaram dos desafios técnicos da digitalização de seus acervos.

Jomar Silva, da ODF Alliance, lembrou a necessidade de usar padrões abertos para a preservação da memória. Alertou que textos .doc podem não ser lidos daqui a 10 anos e que os vídeos que você faz em MPEG4 não são livres, poderão estar condicionados a pagamento a qualquer momento.

Dalton Martins apresentou o trabalho do Weblab, na busca de promover a transformação social com o uso da tecnologia. Por último, Geber Ramalho, com seu delicioso sotaque pernambucano, cunhou o conceito de  “gameficação” para propor que bibliotecas promovam experiências lúdicas e interativas para atrair o público.

Os debatedores eram todos feras.  O trabalho que realizam é extremamente louvável.  Mas a reflexão sobre a tal Memória Digital propriamente dita, não foi além do texto.

Esperávamos poder conhecer muito mais e trocar idéias sobre as questões que impedem ou dificultam a preservação e digitalização dos acervos audiovisuais. A obsolescência dos equipamentos de reprodução, a inexistência de cadastros de conteúdos, possíveis padrões e mídias de preservação, para citar alguns exemplos.

Nem mesmo a experiência da TV Cultura de São Paulo,  que já digitalizou mais de 6.000 horas de audiovisual em suporte Quadruplex, obteve espaço no debate sobre Memória.

Mas a maior de todas as frustrações foi estar na Cinemateca Brasileira e não ter acesso ao trabalho de digitalização que está sendo feito pela instituição.

O debate sobre a memória da televisão pública brasileira, que nunca teve recursos suficientes para manter seus acervos e promover a renovação dos suportes onde estão acondicionados, vai ter que aguardar outros fóruns. Que venham logo, e que tragam investimentos e tecnologia, antes que nada mais exista para ser recuperado.

Sábado foi dia de feira de arte e ciência em várias escolas da cidade do Rio de Janeiro. Estive em uma delas, acompanhada de minha amiga Jane, prestigiando as apresentações das crianças da família.

A fila de adultos no portão já indicava a afluência maciça de pais, tios, avós e simpatizantes, como era o nosso caso. Cartazes, faixas e balões coloridos indicavam as instalações e experiências. Arte e ciência juntas pela educação.

Logo na entrada, tapetes de grama sintética levavam a bacias de plástico com areia, barro, terra preta, plantas ou água para recriar ambientes naturais, que podiam ser penetrados. Ao longo dos corredores e das salas, outros objetos estranhos como  bólides, relevos espaciais e parangolés estavam por toda parte. Revelavam a maior inspiração da mostra: a obra de Hélio Oiticica,  apreendida nas aulas de artes.

No salão principal, as turmas de segundo ano trabalharam com o tema “‘Vida combina com…” . Os mais crescidinhos, do terceiro ano, convidavam para “Um passeio entre histórias e noções de Astronomia”.

Jane ficou apaixonada pela turminha que explicava quais são os componentes do solo da Lua, manipulando um modelo de isopor e massinha plástica colorida. Outro aluno mostrava imagens das crateras abertas por meteoros no solo lunar e falava com intimidade sobre a camada de poeira que cobre a superfície do satélite natural da terra.

Todos os trabalhos apresentados eram coletivos e as crianças se alternavam nas explicações, recitando as frases que lhes cabiam e cutucando os próximos que deveriam completar o sentido dos textos.

Alunos da quarta série trabalharam com o tema “Entrando no Clima”. Ganhei uma medalha que dizia “você é uma pessoa verde”, porque acertei várias perguntas de um jogo sobre o tempo necessário para degradar plástico, papel, latas de alumínio, filtros de cigarro e outros materiais na natureza.

As turmas de quinta série fizeram um zoom “Do gigantesco ao microscópico”, com direito a modelos de astros e toda uma escala de objetos e seres, só visíveis com lupa ou microscópio.

Ao longo da exposição, fui me lembrando de um texto de Edgard Roquette-Pinto, que li em O Pequeno Cientista Amador. Dizia assim:

“…os métodos de ensino são anacrônicos, atrasados, rudimentares e incompletos, incapazes de formar cidadãos dignos da época, eficientes e fortes, em condições de lutar vantajosamente com as dificuldades da vida moderna, em que, pelo formidável impulso do progresso, o conhecimento da natureza é questão fundamental.”

Conhecido por ter participado do grupo que introduziu o rádio no Brasil, Roquette-Pinto era antropólogo, educador e divulgador da ciência. Trabalhou com museus, rádio e cinema educativo. O texto citado foi extraído de um artigo de seu livro Seixos Rolados, publicado em 1927, com o título A História Natural do Pequeninos. Nele, Roquette-Pinto sugere que os professores proporcionem a seus alunos o contato com a natureza. E recomenda:

“O primeiro passo valioso deve ser dado familiarizando a criança com o meio. Que contra-senso falar aos pequenos de um elefante antes de lhes mostrar as diferenças e semelhanças existentes entre um cão e um gato!”

Creio que Roquette-Pinto teria aprovado as feiras de artes e ciências das escolas cariocas. E teria ficado feliz se elas fossem mais abundantes e frequentes, em todo o país.

Hoje, mais uma vez, acordei com o som estridente do telefone. Tenho dormido pouco e, nessas circunstâncias, sete  da manhã é madrugada. Minha amiga Jane estava muito irritada. 

- Com tanta coisa acontecendo e você não atualiza esse blog? Não tem desculpa. Escreva. Quem mandou inventar?

Sem graça, enfiei o rabinho entre as pernas e dediquei a manhã a lembrar coisas que aconteceram na última semana e que poderia comentar por aqui.

Como sempre, dúzias de assuntos vieram à cabeça. Mas a correria me fez optar pelo mais simples. Meus milhares de leitores vão me perdoar, mas preciso dizer algumas coisas relativas à matéria de capa da Veja, sobre o cérebro de Einstein.

Muito bem ilustrada, com infográficos e entrevistas com os principais pesquisadores que, até hoje, tentam desvendar as razões da genialidade do cientista, a matéria não cita o excelente livro da jornalista Carolyn Abraham, publicado em Português em 2005, pela Relume Dumara.

O livro reportagem de Carolyn, Viajando com o Cérebro de Einstein, conta as aventuras e desventuras do guardião do cérebro, o patologista chefe do Hospital de Princeton, Thomas Harvey, que fez a necrópsia do cientista, em 1955, e surrupiou o cérebro, sem pedir permissão a ninguém.  Aliás, nem a família sabia que ele tinha roubado as 1230 gramas de tecido do órgão responsável por pensamentos que revolucionaram muito do que a humanidade sabia sobre a natureza.

Carolyn conta em seu livro como Thomas Harvey serrou o crânio de Einstein, retirou o cérebro, guardou num vidro e levou para seu laboratório na universidade. Depois, fotografou, pesou, mediu, embalsamou e cortou o tecido em mais de 200 pedaços, que passou a distribuir para pesquisadores que pudessem se interessar em descobrir as razões da genialidade do cientista.

A famosa massa encefálica viajou por diversos estados norteamericanos no banco de trás do carro de Thomas Harvey e fatias de tecido foram enviadas para pesquisadores de vários países, do Canadá ao Japão, passando pela Europa e pela Índia. 

Mas, até hoje, nenhum dos estudos feitos revelou pistas ou razões  anatômicas capazes de explicar a profusão de pensamentos geniais oriundos daquele mesmo cérebro.

O repórter de Veja, Leandro Narloch, revisou o estado da arte das pesquisas sobre o cérebro do mais popular dos cientistas em oito páginas da revista, além de ouvir outros especialistas. Nada de muito novo. Bem no estilo da revistona.

De qualquer forma,  a cara de Einstein com a língua e o cérebro à mostra nas bancas de jornais, bem durante a Semana Nacional de Ciência e Tecnologia, deve ajudar a vender muita revista.

EWCLiPo

Setembro 29, 2009

Minha amiga Jane ligou bem cedo, hoje de manhã, curiosa sobre o encontro de blogueiros científicos em Língua Portuguesa, no fim de semana, em Arraial do Cabo. Foi bom?

Há muitos anos não participo de um encontro tão informal, estimulante e divertido.

Começou na sexta-feira, com uma palestra sobre Ciência e Culinária, de Milton Moraes, Confraria da Boa Companhia, que deve ter sido deliciosa. Mas eu tinha compromisso no Rio e não pude ir.

Cheguei no sábado de manhã, já no meio da fala da Sonia Rodrigues, do sei mais física, mas ainda deu para saber das dificuldades que ela enfrenta ao incentivar jovens de periferia, com inteligência acima da média, a entrar na universidade. Os alunos carecem de recursos para transporte e para usar o computador nas lan houses, o que é indispensável para cumprir o programa proposto.

Perdi a palestra do Mauro Rebelo, do Você que é Biólogo, organizador do evento. Uma pena. Queria muito conhecer as dicas para escrita criativa em ciências.

A palestra do Carlos Cardoso, o primeiro blogueiro profissional que já tive o prazer de conhecer, foi muito engraçada. Ele afirmou que é possível ganhar algum dinheiro com blogs e contou como fazer para atrair paraquedistas, aumentar o fluxo ao blog e acumular uns tostões com banners, posts pagos, links patrocinados, comissões, consultoria. Bons conselho$.

O administrador do ScienceBlogs Brasil, Carlos Hotta, do Brontossauros no meu jardim, falou sobre a experiência compartilhada no novo conglomerado virtual. Ele informou que serão abertas inscrições para acesso ao condomínio, mas sugeriu outras iniciativas de união de blogs por conteúdo. O Science Blogs Brasil reúne 29 blogs, com 31 blogueiros super ativos – com muitos posts originais e bem escritos -  critérios indispensáveis para a aceitação no grupo.

Depois do almoço e do check-in na simpática Pousada do Capitão, foi a vez de Osame Kinouche, do SemCiência, contar que existem cerca de 250 blogs científicos ativos. Uma festa pra quem tem tempo de navegar e gosta de ler sobre ciência.

A essa altura do relato, minha amiga Jane perguntou, como já o fez Caetano: caramba, quem lê tanta notícia?

A falta de hierarquia, controle ou regulação no meio virtual foi abordada na palestra de Leandro Tessler, do Cultura Científica, com o título Anti-ciência. Não entendi direito, mas fiquei com a impressão que ele advoga algum tipo de controle social da blogosfera, para evitar criacionismos, fundamentalismos, charlatanismos e outros ismos. Uma idéia que não combina com o território livre da Internet.

Ildeu Moreira e Luiza Massarani não apareceram no encontro. Por isso, a apresentação do Bernardo Esteves, da Ciência Hoje on line, prevista para domingo, foi antecipada. Bernardo citou a máxima do Marcelo Leite: o papel do jornalismo em ciência é tornar interessante o que é importante e não tornar importante o que (só) é interessante. Ele também anunciou uma iminente reforma no site do CH on line. Uma ótima notícia. Estava mesmo precisando.

O domingo foi reservado para a discussão de quem deve divulgar a ciência: os cientistas ou os jornalistas. Suzana Herculano-Houzel, A Neurocientista de Plantão, e Alessanda Carvalho, do Karapanã, ofereceram argumentos diferentes para reafirmar que a divulgação científica deve ser feita, e bem feita, por todos.

Chegou a minha vez de falar e eu nem fiquei muito nervosa. Mostrei um monte de vídeos e meus dados de acompanhamento da ciência na televisão. Acho que o pessoal gostou, especialmente da comparação entre o total de horas dedicadas por semana à ciência: 8h30 e à religião: 190 horas.

Maria Guimarães, da Revista Pesquisa, da FAPESP, contou como um cientista decide o que pesquisar e como um jornalista decide o que publicar. A estética e o método. A síntese que me ocorre é: paixão.

A última palestra foi feita pelo Fábio Almeida, do Ciencine, e trouxe a contribuição da ciência na criação do cinema. Ótimas imagens da pesquisa sobre o movimento com animais e pessoas. Teria o cinema sido inventado por um biólogo? Mas o ponto alto da palestra foi a exibição de um depoimento do precursor da divulgação científica no Brasil, o mestre José Reis. Pura emoção!

Ano que vem, estarei lá, em Sampa. Me aguardem!

Ciência pelos blogs

Setembro 23, 2009

Quando minha amiga Jane soube que eu aceitei falar sobre televisão num encontro de blogueiros de ciência, achou que eu tinha enlouquecido.

- E o que você vai dizer para esses blogueiros? Esse pessoal não vê televisão. O negócio deles é internet – Jane fez questão de sublinhar.

Fiquei uma semana apavorada, navegando por vários blogs de ciência. Queria saber o que pensa esse pessoal ou, pelo menos, como eles se mostram na rede.

Aprendi um monte de coisas nos blogs de ciências. Por que São Paulo Alaga; as bases bioquímicas do Mal de Alzheimer; como o vento pode alimentar a China (e salvar o clima da terra); como os genes podem determinar o ateísmo. Os blogs são muitos, diversos e fartos em informação.

Será que esse pessoal tem mesmo interesse pelo que se passa na televisão?

Vamos ver no segundo Encontro de Weblogs Científicos em Língua Portuguesa (II EWCLiPo), de 25 a 27 de setembro em Arraial do Cabo-RJ.

Confira a programação aqui.

Minha amiga Jane não tem nada de moralista. Sempre pregou a liberdade sexual, tanto para ela própria quanto para amigos, filhos – especialmente as filhas – sobrinhos e netos.

Mas desde o advento do HIV, que cerceou a liberdade duramente conquistada pela geração da Jane, minha amiga diz: use e aproveite, mas tenha cuidado.

Uma pesquisa do Instituto Nacional do Câncer, o INCa mostrou que, entre 1999 e 2005, houve um crescimento de 2,6 vezes na contaminação de jovens entre 10 e 19 anos pelo vírus HPV: papiloma vírus humano, um dos agentes comprovadamente causadores de câncer genital.

Um projeto do Programa de Oncobiologia da UFRJ, apoiado pela Faperj, Fundação do Câncer e CNPq, verificou que os jovens cariocas sabem pouco ou quase nada sobre o vírus do papiloma humano.

A equipe do programa resolveu, então, fazer um vídeo em animação, para contar de forma divertida e lúdica como os jovens – e, de resto, todos nós sexualmente ativos - podemos nos prevenir de mais esse vírus, que atenta contra o nosso prazer.

Minha amiga Jane recomenda. Assistam aí:

Semana passada, minha amiga Jane caminhava pela Teodoro Sampaio, em São Paulo, quase seis da tarde, tropeçando nas pessoas que saíam do trabalho e lotavam a calçada, as esquinas e os pontos de ônibus.

Jane ia apressada. Estava atrasada para um encontro real com uma amiga virtual, a Isis, editora do xisxis, um site de divulgação científica. Tinham marcado às seis e Jane tinha certeza de que não chegaria a tempo, não com aquele monte de gente no meio da rua.

Ia pensando num livro da jornalista Laurie Garrett, que leu há muitos anos, sobre as doenças emergentes, causadas pela proliferação dos vírus, neste mundo sem controle imunológico: Ebola, Lhasa, H5N1, a gripe aviária, H1N1, ou Gripe Suína e o mais temido, HIV.

De repente, ficou sem fôlego. Faltava muito, ainda, para chegar à Livraria da Vila. Com a garganta seca e sentindo que ia sufocar, Jane começou a tossir. Uma, duas, três vezes.

Nesse momento, percebeu que as pessoas se afastavam dela, abriam espaço na calçada, olhando de cara feia e tampando o rosto.

Só então, Jane se lembrou do pânico que está sendo provocado pela gripe suína. Todo mundo com medo do vírus da Influenza A.

Respirou fundo, recuperou o ar e aproveitou que todo mundo se aglomerava nas laterais se afastando dela, para seguir seu caminho sem impedimentos, morrendo de rir.

Num país de dimensões continentais como o Brasil, a televisão assumiu a função de meio difusor de informações, linguagens, hábitos e idéias para um público que passa, em média, quatro horas por dia atento às transmissões da “telinha”, numa experiência coletiva diária de representação e construção da realidade.

Minha amiga Jane gosta de dizer que na sociedade brasileira contemporânea, com todos os seus segmentos de público que se destacam pelas particularidades etárias, socioeconômicas e regionais, a realidade passa a ser o que aparece na TV aberta, especialmente no telejornalismo, que cria e dá visibilidade aos fatos do cotidiano.

Atualmente, sete redes de televisão estão autorizadas pelo governo a transmitir programação em canal aberto e gratuito. Seis delas são comerciais: Rede Globo, Rede TV!, Rede Bandeirantes, CNT, Sistema Brasileiro de Televisão – SBT – e Rede Record. Uma é pública: a TV Brasil, inaugurada em 02 de dezembro de 2007.

Minha amiga Jane, sempre atenta à programação exibida por essas concessões públicas,  resolveu contar quantas horas a televisão brasileira destina a programas sobre ciência, tecnologia e meio ambiente.

Ela somou os tempos das grades de programação das emissoras de canal aberto e gratuito, publicadas nos jornais de grande circulação no Rio de Janeiro. A descoberta não poderia ser mais desconcertante: as emissoras brasileiras gratuitas destinam 6,5 horas semanais à transmissão de programas sobre ciência, tecnologia e meio ambiente.

Sem saber se isso é muito ou pouco, resolveu contar também quantas horas as emissoras usam para transmitir programas religiosos.  Jane quase caiu sentada: são 190 horas semanais!

A simples comparação desses dois dados mostra que a população brasileira está muito mais exposta a conteúdos de caráter religioso do que aos temas científicos. Já pensaram na contribuição que a televisão está dando à formação das novas gerações?

Religião, violência, sexo e corrupção. É o que as nossas crianças aprendem na TV aberta todos os dias. É o tipo de sociedade que estamos construindo.

Minha amiga Jane se lembra bem da época em que poucos cientistas tinham coragem de falar com a imprensa. A maioria dos pesquisadores temia ter seu trabalho distorcido, grosseiramente simplificado, ou receava ser criticado por seus pares ao dar entrevistas ou, principalmente, aparecer na televisão.

Carl Sagan era diferente. Não só falava quando procurado, mas também acreditava na popularização da ciência e na importância da participação dos cientistas nesse processo. Além de escrever diversos livros de divulgação científica, apresentou a série Cosmos, da BBC, uma das precursoras do gênero na televisão mundial.

O resultado de uma pesquisa publicada esta semana (11 de julho) na Science dá mostras de que esse tabu está sendo progressivamente quebrado. Um grupo de estudiosos da comunicação liderado por Hans Peter Peters ouviu 1300 cientistas de cinco países (EUA, Inglaterra, França, Alemanha e Japão) sobre suas relações com a imprensa. A maioria dos cientistas ouvidos (57%) considera positiva sua última experiência com a mídia e somente 6% ficaram insatisfeitos com os resultados da divulgação de seu trabalho.

O estudo indica que os cientistas finalmente percebem a importância da imprensa no reconhecimento público da pesquisa científica e, ainda, que as relações entre cientistas e jornalistas são mais respeitosas e profissionais.