TV Pública – por que uma nova?
Outubro 20, 2007
Minha amiga Jane mora em Brasília. Pertinho do poder. Talvez por isso, participa dos ritos palacianos e faz força para acompanhar as decisões do Governo. Fica especialmente atenta quando os assuntos passam pela cultura, meios de comunicação ou pela educação da população brasileira.
Na semana passada, Jane ficou agitada com a publicação da MP 398 no Diário Oficial, para criar a Empresa Brasil de Comunicação – EBC, que será responsável pela organização da TV Pública, menina dos olhos do presidente Lula.
A EBC é a soma dos orçamentos, estruturas, facilidades, pessoas e equipamentos de duas organizações: a Radiobrás – empresa pública que opera seis emissoras de rádio, três emissoras de televisão e duas agências de notícias na internet e também presta serviços de clipagem e de publicidade legal – e a ACERP – organização social que administra a TVE Brasil e a TVE do Maranhão, um canal de TV via satélite, três canais de rádio convencionais e um por satélite.
Jane conhece bem a TVE Brasil, como um dos ícones culturais do Rio de Janeiro. Quando morava na cidade, minha amiga participou de programas da TVE, na época Fundação Roquette-Pinto era cabeça da “Rede Brasil de Comunicação”.
Por isso ela sabe que para quem mora em São Paulo ou Brasília a TVE Brasil não existe. Nem mesmo no line-up das operadoras de tv a cabo. Ninguém no Palácio do Planalto, por exemplo, conhece o Sem Censura, o Re(Corte) Cultural ou o Comentário Geral, somente para citar alguns exemplos. O Planalto Central não faz idéia do impacto educativo de uma série como Um menino muito maluquinho, o único programa infantil brasileiro indicado na categoria Crianças e Jovens para o prêmio mais importante da televisão mundial, o Emmy-2007.
A TVE Brasil é a única emissora aberta e gratuita da televisão brasileira que cumpre com rigor a missão de desenvolver programas de qualidade, investindo numa programação com objetivos educativos, artísticos, culturais, científicos e informativos.
Não é exagero dizer que, quando passou a ser gerida por uma organização social, a TVE Brasil viveu um processo de transformação e de resgate de sua história, buscando retomar seu lugar no panorama da comunicação pública e educativa brasileira. E nada disso se faz por passe de mágica. Nos últimos cinco anos houve um trabalho competente e profissional que amealhou recursos para renegociar dívidas fiscais e trabalhistas, modernizar equipamentos e processos de trabalho, capacitar e resgatar a auto-estima de profissionais esquecidos pelo poder público, mal remunerados e magoados. Foi preciso reformar as instalações, redefinir o conceito da programação e modernizar logotipo, cenários, produções e posicionamento da emissora.
Um verdadeiro processo de Reconstrução, em maiúsculo, como afirmou Beth Carmona, diretora-presidente da ACERP, na apresentação do recém-lançado Relatório 2003-2006, que na verdade retrata o trabalho da equipe e as conquistas alcançadas até outubro de 2007.
A MP 398 não dá pistas sobre as funções a serem desempenhadas pelos atuais diretores da ACERP na nova emissora de televisão. Nem sequer se sabe se permanecerão. Também é omissa em relação ao futuro dos profissionais – tanto celetistas quanto servidores públicos – que ajudaram a fazer da TVE Brasil o melhor e mais premiado exemplo de TV Pública que o Rio de Janeiro já viu.
A nova presidente da TV Brasil, Teresa Cruvinel, esteve no Observatório da Imprensa desta semana e assegurou que não existe um plano de demissões em massa e que haverá uma unificação tranqüila e produtiva. No editorial do programa, o jornalista Alberto Dines afirmou que a futura rede não poderá ser classificada estritamente como pública porque é do Estado, mas será de interesse público: “Atender ao interesse público significa reforçar a qualidade, valorizar os aspectos culturais e apostar na diversidade informativa.”
Minha amiga Jane promete continuar acompanhando a discussão sobre a TV pública que o governo Lula colocará no ar dia 2 de dezembro, inaugurando a transmissão digital no Brasil. Essa data, 2 de dezembro, é a principal justificativa para a edição de uma medida provisória ao invés do envio de um projeto de lei para o Congresso, o que possibilitaria o aprofundamento do debate pela sociedade.
Eu sei que Jane vai acompanhar tudo. Ela não vai conseguir dormir enquanto não fizer uma lista das verdadeiras razões de toda essa pressa.
Outubro 22, 2007 at 1:09 pm
A nossa amiga Jane parece estar bem informada sobre a TV pública. E tenho certeza de que não só Jane, mas todos nós, brasileiros, estamos de olho na criação da EBC e esperamos que as mudanças sejam para melhor servir os cidadãos.
Outubro 22, 2007 at 8:27 pm
Esperamos que essa pressa toda não gere um resultado que corrompa os progressos conquistados pela ACERP. Quanto às mudanças: que venha a opinião pública interagir com o projeto de Tv Pública, que venham as críticas, que venham as construções… Uma Rede de Televisão Pública, em princípio, é uma grande conquista. Vamos torcer e cobrar que isso ocorra.
Grande abraço.
Outubro 23, 2007 at 1:37 pm
Dines têve razão quando disse que a EBC não poderá ser classificada como estritamente pública na medida em que ela é uma criação do Estado – com o agravante da pressa da estréia e também do texto evazivo da MP. Aliás, me parece que esta data (2 de dezembro) representa mais uma janela no palanque da era Lula-presidente do que o marco inicial do ideal comunicação pública brasileira na forma de uma rede única. Todavia, esperamos que este ideal seja tanto o motor quanto o fruto dessa nova empreitada. Esperamos pelo melhor.
Grande abraço às amigas!
Novembro 13, 2007 at 3:24 pm
[...] produção apresentada pela jornalista Leda Nagle, deve terminar em decorrência da nova TV pública. A equipe do programa e a emissora TVE Brasil não confirmam os [...]
Dezembro 5, 2007 at 11:44 am
Eu tinha comentado com Jane que “alguma coisa” deveria acontecer depois do 2 de dezembro. Mas ela estava certa : “só se for num passe de mágica”.