Ciência na escola: feira de conhecimentos

outubro 28, 2009

Sábado foi dia de feira de arte e ciência em várias escolas da cidade do Rio de Janeiro. Estive em uma delas, acompanhada de minha amiga Jane, prestigiando as apresentações das crianças da família.

A fila de adultos no portão já indicava a afluência maciça de pais, tios, avós e simpatizantes, como era o nosso caso. Cartazes, faixas e balões coloridos indicavam as instalações e experiências. Arte e ciência juntas pela educação.

Logo na entrada, tapetes de grama sintética levavam a bacias de plástico com areia, barro, terra preta, plantas ou água para recriar ambientes naturais, que podiam ser penetrados. Ao longo dos corredores e das salas, outros objetos estranhos como  bólides, relevos espaciais e parangolés estavam por toda parte. Revelavam a maior inspiração da mostra: a obra de Hélio Oiticica,  apreendida nas aulas de artes.

No salão principal, as turmas de segundo ano trabalharam com o tema “‘Vida combina com…” . Os mais crescidinhos, do terceiro ano, convidavam para “Um passeio entre histórias e noções de Astronomia”.

Jane ficou apaixonada pela turminha que explicava quais são os componentes do solo da Lua, manipulando um modelo de isopor e massinha plástica colorida. Outro aluno mostrava imagens das crateras abertas por meteoros no solo lunar e falava com intimidade sobre a camada de poeira que cobre a superfície do satélite natural da terra.

Todos os trabalhos apresentados eram coletivos e as crianças se alternavam nas explicações, recitando as frases que lhes cabiam e cutucando os próximos que deveriam completar o sentido dos textos.

Alunos da quarta série trabalharam com o tema “Entrando no Clima”. Ganhei uma medalha que dizia “você é uma pessoa verde”, porque acertei várias perguntas de um jogo sobre o tempo necessário para degradar plástico, papel, latas de alumínio, filtros de cigarro e outros materiais na natureza.

As turmas de quinta série fizeram um zoom “Do gigantesco ao microscópico”, com direito a modelos de astros e toda uma escala de objetos e seres, só visíveis com lupa ou microscópio.

Ao longo da exposição, fui me lembrando de um texto de Edgard Roquette-Pinto, que li em O Pequeno Cientista Amador. Dizia assim:

“…os métodos de ensino são anacrônicos, atrasados, rudimentares e incompletos, incapazes de formar cidadãos dignos da época, eficientes e fortes, em condições de lutar vantajosamente com as dificuldades da vida moderna, em que, pelo formidável impulso do progresso, o conhecimento da natureza é questão fundamental.”

Conhecido por ter participado do grupo que introduziu o rádio no Brasil, Roquette-Pinto era antropólogo, educador e divulgador da ciência. Trabalhou com museus, rádio e cinema educativo. O texto citado foi extraído de um artigo de seu livro Seixos Rolados, publicado em 1927, com o título A História Natural do Pequeninos. Nele, Roquette-Pinto sugere que os professores proporcionem a seus alunos o contato com a natureza. E recomenda:

“O primeiro passo valioso deve ser dado familiarizando a criança com o meio. Que contra-senso falar aos pequenos de um elefante antes de lhes mostrar as diferenças e semelhanças existentes entre um cão e um gato!”

Creio que Roquette-Pinto teria aprovado as feiras de artes e ciências das escolas cariocas. E teria ficado feliz se elas fossem mais abundantes e frequentes, em todo o país.


O cérebro de Einstein no banco de trás

outubro 22, 2009

Hoje, mais uma vez, acordei com o som estridente do telefone. Tenho dormido pouco e, nessas circunstâncias, sete  da manhã é madrugada. Minha amiga Jane estava muito irritada. 

– Com tanta coisa acontecendo e você não atualiza esse blog? Não tem desculpa. Escreva. Quem mandou inventar?

Sem graça, enfiei o rabinho entre as pernas e dediquei a manhã a lembrar coisas que aconteceram na última semana e que poderia comentar por aqui.

Como sempre, dúzias de assuntos vieram à cabeça. Mas a correria me fez optar pelo mais simples. Meus milhares de leitores vão me perdoar, mas preciso dizer algumas coisas relativas à matéria de capa da Veja, sobre o cérebro de Einstein.

Muito bem ilustrada, com infográficos e entrevistas com os principais pesquisadores que, até hoje, tentam desvendar as razões da genialidade do cientista, a matéria não cita o excelente livro da jornalista Carolyn Abraham, publicado em Português em 2005, pela Relume Dumara.

O livro reportagem de Carolyn, Viajando com o Cérebro de Einstein, conta as aventuras e desventuras do guardião do cérebro, o patologista chefe do Hospital de Princeton, Thomas Harvey, que fez a necrópsia do cientista, em 1955, e surrupiou o cérebro, sem pedir permissão a ninguém.  Aliás, nem a família sabia que ele tinha roubado as 1230 gramas de tecido do órgão responsável por pensamentos que revolucionaram muito do que a humanidade sabia sobre a natureza.

Carolyn conta em seu livro como Thomas Harvey serrou o crânio de Einstein, retirou o cérebro, guardou num vidro e levou para seu laboratório na universidade. Depois, fotografou, pesou, mediu, embalsamou e cortou o tecido em mais de 200 pedaços, que passou a distribuir para pesquisadores que pudessem se interessar em descobrir as razões da genialidade do cientista.

A famosa massa encefálica viajou por diversos estados norteamericanos no banco de trás do carro de Thomas Harvey e fatias de tecido foram enviadas para pesquisadores de vários países, do Canadá ao Japão, passando pela Europa e pela Índia. 

Mas, até hoje, nenhum dos estudos feitos revelou pistas ou razões  anatômicas capazes de explicar a profusão de pensamentos geniais oriundos daquele mesmo cérebro.

O repórter de Veja, Leandro Narloch, revisou o estado da arte das pesquisas sobre o cérebro do mais popular dos cientistas em oito páginas da revista, além de ouvir outros especialistas. Nada de muito novo. Bem no estilo da revistona.

De qualquer forma,  a cara de Einstein com a língua e o cérebro à mostra nas bancas de jornais, bem durante a Semana Nacional de Ciência e Tecnologia, deve ajudar a vender muita revista.