1910 – A “criatura” de Frankenstein no cinema

No verão de 1816, a jovem Mary Wollstonecraft Godwin (1797-1851), filha de duas importantes personalidades literárias da Inglaterra, foi passar uma temporada com amigos intelectuais à beira do Lago Léman, entre os quais seu futuro marido, o poeta romântico, Percy Bysshe Shelley e os escritores John Polidori e Lord Byron . Foi um verão escuro e frio, pois a erupção do Monte Tambora, na atual Indonésia, no ano anterior, lançou um milhão e meio de toneladas de poeira na atmosfera, bloqueando a luz solar e impondo um clima hostil à população de todo o hemisfério norte. Forçados a permanecer a maior parte do tempo dentro de casa, os veranistas se distraiam lendo uns para os outros contos de horror, principalmente histórias de fantasmas alemãs traduzidas para o francês.

Para ajudar a entreter seus amigos, Lord Byron lançou um desafio: cada um deveria escrever uma história de fantasmas. Passados vários dias em que não conseguia inspiração para sua história, a futura senhora Shelley, então com 19 anos, teve o que ela própria descreve como “uma visão”: um brilhante estudante de ciências naturais desafia o conhecimento estabelecido e dá vida a um amontoado de tecidos em seu laboratório. Essa visão tornou-se a base da história de Frankenstein, que a escritora transformaria em romance nos anos seguintes, contando com o apoio do futuro marido.

A primeira versão do romance foi publicada em 1818, com o título Frankenstein ou o moderno Prometeu, e sequer trazia o nome da autora, somente um prefácio escrito pelo noivo, Percy Shelley, e uma dedicatória a William Godwin, seu pai. Atacada pela crítica, a obra foi um sucesso de público, principalmente a partir de adaptações para o teatro e da tradução para o francês. A versão definitiva, que conhecemos hoje, foi publicada em 1831 e revisada por Mary Shelley, com o acréscimo de um prefácio, onde a autora relata a gênese da história.

O inventor Thomas Alva Edison (1847-1931) – criador da lâmpada e do cinetoscópio, protótipo do projetor de películas – produziu em seus recém criados Edson Studios a adaptação para o cinema. Charles Ogle, como a criatura, é um pouco patético. Quero dizer, de nossa perspectiva, cem anos depois. Minha amiga Jane me acusa de preferir o Edson cientista ao cineasta. Confira aí e deixe seu comentário.

A imagem mais famosa da criatura é da versão dirigida por James Whale, em 1931, que virou clássico do cinema. A representação do monstro na pele de Boris Karloff, com a cabeça quadrada, eletrodos no pescoço e movimentos pesados e desajeitados transformou-se em ícone do terror. Reproduzida em todas as mídias, do cinema aos quadrinhos, a imagem daquele monstro em particular, associada ao nome Frankenstein, persiste no imaginário da população. Poucos se lembram da imagem do cientista, o doutor Victor Frankenstein, o criador, que dá nome à película.

Ainda assim, Victor Frankenstein é o cientista mais evocado da história do cinema. Mais de 80 filmes foram inspirados na figura do homem de ciência que, como o mitológico Prometeu, desafia a sociedade (os deuses do Olimpo) e rouba os segredos do fogo (da natureza, da origem da vida).

A história de Frankenstein continua a provocar intensas emoções no público e os temas que aborda são revisitados em novas e instigantes obras, 180 anos depois de sua primeira publicação e 100 anos após o lançamento da primeira versão cinematográfica. As conturbadas relações entre criador e criatura, com evidentes evocações religiosas, os conflitos éticos da pesquisa na fronteira do conhecimento e as conseqüências da ação do homem sobre a natureza inspiraram muitos autores. E fácil encontrar esses conflitos, por exemplo, em Blade Runner, o Caçador de Andróides, de Ridley Scott, ou em Edward Mãos de Tesoura, de Tim Burton.

A partir do lançamento do Frankenstein de Thomas Edson, o cinema mundial continuaria, por muitos anos, a retratar o cientista como um louco, ou mesmo como um monstro. Mas este é um tema para os próximos posts.

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3 Responses to 1910 – A “criatura” de Frankenstein no cinema

  1. disse:

    Lacylinda,querida muito muito obrigada por sua participação no Premio Be Neviani e tomara que dê certo e faça sucesso!kkkkk

  2. dra_luluzita disse:

    ameiii o texto =) li num folego só.. deixa eu respirar…afffff
    e obrigada por estar no #PremioBeNeviani

  3. […] no blog Amiga Jane sobre a imagem do cientista e da ciência no cinema: O cientista no cinema; 1910 – A “criatura” de Frankestein no cinema; Monstros ou […]

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