Monstros ou Loucos?

Ao longo do século XX, o cinema colaborou de forma decisiva para a construção da imagem pública da ciência e dos cientistas. Personagens assustadores como o Dr. Frankenstein, Dr. Jekyl, Dr. Caligari, Dr. Strangelove, foram fundamentais para definir as características do cientista no imaginário da população. Malucos ou monstros? Comprometidos com o bem estar da humanidade ou dispostos a destrui-la?

Nos primórdios do cinema, a medicina era a face mais visível da ciência. O cientista típico retratado nas telas era uma mistura de clínico, cirurgião e pesquisador, que vivia cercado por uma parafernália de substâncias e equipamentos bizarros, capazes de render inquietantes cenários com retortas e tubos de ensaio borbulhantes, faíscas e raios. É assim em O Médico e o Monstro – Dr. Jekyll and Mister Hyde – filmado por John S. Robertson, em 1931, uma adaptação do romance do escocês Robert Louis Stevenson, publicado em 1886.

O Dr. Heny Jekyll é um membro respeitável da sociedade inglesa. Noivo de Muriel Carew, filha de um general, é um médico abnegado e atencioso com seus pacientes. Mas ele acredita que todo homem tem um lado bom e um lado perverso. E se dedica a provar sua teoria, utilizando substâncias químicas capazes de liberar o mal que sabe residir em seu interior. Assim dá vida a Mr Hide e comete atrocidades.

De acordo com os historiadores J. Richards[i] e M. Shortland[ii], a interação entre os filmes e a opinião pública ocorre de duas formas: os filmes podem simplesmente refletir ou realçar certos aspectos da opinião pública; ou podem tentar modificar esta opinião. O fato é que a maioria da população forma suas impressões sobre a ciência e os cientistas a partir do que vê na mídia, seja nos noticiários ou em programas de entretenimento, como os filmes.

O sociólogo inglês Andrew Tudor, da Universidade de York, em seu livro Monsters and Mad Scientists: A Cultural History of the Horror Movie[iii], publicado em 1989, na Inglaterra, analisou quase mil filmes do gênero terror, produzidos entre 1931 e 1984. Em mais de um quarto desses filmes (264), a ciência é a principal fonte de ameaça à humanidade. Um cientista louco é a origem de todos os problemas em 169 filmes. Nos 95 restantes, as ameaças não são ocasionadas pela ação direta do cientista, mas são conseqüência das investigações e descobertas científicas.


[i] Richards, Je Aldgate, A., 1983 – Best of British: Cinema and Society 1930-1970, Basil Blackwell, Oxford.

[ii] Shortland,M., 1987 – Screen Memories: Towards a History of Psychiatry and Psychoanalysis in the Movies, British Journal for the History of  Science,20, 421-452.

[iii] Tudor, Andrew, 1989 – Monsters and Mad Scientists: A Cultural History of the Horror Movie, Basil Blackwell, Oxford.

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One Response to Monstros ou Loucos?

  1. […] excelente sequência de posts no blog Amiga Jane sobre a imagem do cientista e da ciência no cinema: O cientista no cinema; 1910 – A “criatura” de Frankestein no cinema; Monstros ou loucos?; […]

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