Estereótipos do cientista na literatura e no cinema

maio 30, 2011

d’après Roslynn D. Haynes*

O Alquimista

Personagem maníaco e obsessivo que reaparece de tempos em tempos, apresentado como cientista. É movido por objetivos intelectuais secretos, com inspiração ideologicamente maléfica. Este personagem, atualmente, encarna o biólogo que produz novas (e em geral ilegais) espécies, através do quase mágico processo de engenharia genética.

O Estúpido brilhante

Preocupado com as trivialidades do seu mundo científico privado, este personagem ignora suas responsabilidades sociais. Costuma viver isolado das pessoas e do contato com o mundo real. À primeira vista, parece mais cômico do que sinistro, mas suas ações têm implicações assustadoras. Nos filmes do início do Século XX, é o professor cabeça-de-vento que não dispõe das habilidades necessárias para fazer o que pretende e se torna um verdadeiro fracasso moral.

O Romântico

É a representação do cientista insensível que renegou as relações humanas e suprimiu todas as afeições, pela causa da ciência. Este foi o estereótipo mais duradouro e ainda representa a imagem mais comum do cientista no pensamento popular, recorrendo repetidamente nas novelas (ver a paleontóloga Júlia  no ar na novela das 19 horas da Globo), peças de teatro e filmes do século 20. Em exemplos dos anos 50, essa figura apresenta uma ambivalência adicional: sua deficiência emocional é condenada como inumana, por vezes sinistra, mas em algumas situações esta deficiência é desculpada, com freqüência admirada, significa o preço inevitável que os cientistas têm que pagar para reafirmar seu desinteresse.

O Aventureiro heróico

Este personagem pode ser herói e aventureiro no plano físico ou no intelectual. Acima da humanidade, como super homem, explorando novos territórios ou engajado em novos conceitos, aparece em períodos de otimismo. O apelo particular desse cientista ocorre entre o público adolescente, derivado da promessa implícita de romper fronteiras, sejam elas materiais, sociais ou intelectuais. Essa característica assegurou a popularidade desse estereótipo em comédias e aventuras espaciais. Uma análise mais sutil desses heróis sugere o perigo de seu carisma quando disfarçados de neo-imperialistas viajantes do espaço, eles mostram sua marca de verdadeiros colonizadores do universo.

O cientista sem esperança

Esse personagem perdeu o controle tanto sobre sua descoberta (que como um monstro cresceu mais do que suas expectativas) ou, como sempre acontece em tempo de guerra, sobre o destino da aplicação de sua descoberta. Nas décadas recentes, esta situação vem sendo explorada em relação a uma ampla gama de problemas ambientais, muitos dos quais atribuídos aos cientistas.

O Idealista

Esta figura representa aquele que é aceito sem ambiguidades como cientista, muitas vezes assegurando a possibilidade de uma utopia cientificamente sustentável, com fartura e satisfação para todos, mas frequentemente engajado em conflitos com o sistema tecnológico que não respeita os valores humanos.

 

* From Faust to Strangelove: Representations of the Scientist in Western Literature. Baltimore: Johns Hopkins University Press, 1994.

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O cérebro de Einstein no banco de trás

outubro 22, 2009

Hoje, mais uma vez, acordei com o som estridente do telefone. Tenho dormido pouco e, nessas circunstâncias, sete  da manhã é madrugada. Minha amiga Jane estava muito irritada. 

– Com tanta coisa acontecendo e você não atualiza esse blog? Não tem desculpa. Escreva. Quem mandou inventar?

Sem graça, enfiei o rabinho entre as pernas e dediquei a manhã a lembrar coisas que aconteceram na última semana e que poderia comentar por aqui.

Como sempre, dúzias de assuntos vieram à cabeça. Mas a correria me fez optar pelo mais simples. Meus milhares de leitores vão me perdoar, mas preciso dizer algumas coisas relativas à matéria de capa da Veja, sobre o cérebro de Einstein.

Muito bem ilustrada, com infográficos e entrevistas com os principais pesquisadores que, até hoje, tentam desvendar as razões da genialidade do cientista, a matéria não cita o excelente livro da jornalista Carolyn Abraham, publicado em Português em 2005, pela Relume Dumara.

O livro reportagem de Carolyn, Viajando com o Cérebro de Einstein, conta as aventuras e desventuras do guardião do cérebro, o patologista chefe do Hospital de Princeton, Thomas Harvey, que fez a necrópsia do cientista, em 1955, e surrupiou o cérebro, sem pedir permissão a ninguém.  Aliás, nem a família sabia que ele tinha roubado as 1230 gramas de tecido do órgão responsável por pensamentos que revolucionaram muito do que a humanidade sabia sobre a natureza.

Carolyn conta em seu livro como Thomas Harvey serrou o crânio de Einstein, retirou o cérebro, guardou num vidro e levou para seu laboratório na universidade. Depois, fotografou, pesou, mediu, embalsamou e cortou o tecido em mais de 200 pedaços, que passou a distribuir para pesquisadores que pudessem se interessar em descobrir as razões da genialidade do cientista.

A famosa massa encefálica viajou por diversos estados norteamericanos no banco de trás do carro de Thomas Harvey e fatias de tecido foram enviadas para pesquisadores de vários países, do Canadá ao Japão, passando pela Europa e pela Índia. 

Mas, até hoje, nenhum dos estudos feitos revelou pistas ou razões  anatômicas capazes de explicar a profusão de pensamentos geniais oriundos daquele mesmo cérebro.

O repórter de Veja, Leandro Narloch, revisou o estado da arte das pesquisas sobre o cérebro do mais popular dos cientistas em oito páginas da revista, além de ouvir outros especialistas. Nada de muito novo. Bem no estilo da revistona.

De qualquer forma,  a cara de Einstein com a língua e o cérebro à mostra nas bancas de jornais, bem durante a Semana Nacional de Ciência e Tecnologia, deve ajudar a vender muita revista.