1910 – A “criatura” de Frankenstein no cinema

abril 23, 2010

No verão de 1816, a jovem Mary Wollstonecraft Godwin (1797-1851), filha de duas importantes personalidades literárias da Inglaterra, foi passar uma temporada com amigos intelectuais à beira do Lago Léman, entre os quais seu futuro marido, o poeta romântico, Percy Bysshe Shelley e os escritores John Polidori e Lord Byron . Foi um verão escuro e frio, pois a erupção do Monte Tambora, na atual Indonésia, no ano anterior, lançou um milhão e meio de toneladas de poeira na atmosfera, bloqueando a luz solar e impondo um clima hostil à população de todo o hemisfério norte. Forçados a permanecer a maior parte do tempo dentro de casa, os veranistas se distraiam lendo uns para os outros contos de horror, principalmente histórias de fantasmas alemãs traduzidas para o francês.

Para ajudar a entreter seus amigos, Lord Byron lançou um desafio: cada um deveria escrever uma história de fantasmas. Passados vários dias em que não conseguia inspiração para sua história, a futura senhora Shelley, então com 19 anos, teve o que ela própria descreve como “uma visão”: um brilhante estudante de ciências naturais desafia o conhecimento estabelecido e dá vida a um amontoado de tecidos em seu laboratório. Essa visão tornou-se a base da história de Frankenstein, que a escritora transformaria em romance nos anos seguintes, contando com o apoio do futuro marido.

A primeira versão do romance foi publicada em 1818, com o título Frankenstein ou o moderno Prometeu, e sequer trazia o nome da autora, somente um prefácio escrito pelo noivo, Percy Shelley, e uma dedicatória a William Godwin, seu pai. Atacada pela crítica, a obra foi um sucesso de público, principalmente a partir de adaptações para o teatro e da tradução para o francês. A versão definitiva, que conhecemos hoje, foi publicada em 1831 e revisada por Mary Shelley, com o acréscimo de um prefácio, onde a autora relata a gênese da história.

O inventor Thomas Alva Edison (1847-1931) – criador da lâmpada e do cinetoscópio, protótipo do projetor de películas – produziu em seus recém criados Edson Studios a adaptação para o cinema. Charles Ogle, como a criatura, é um pouco patético. Quero dizer, de nossa perspectiva, cem anos depois. Minha amiga Jane me acusa de preferir o Edson cientista ao cineasta. Confira aí e deixe seu comentário.

A imagem mais famosa da criatura é da versão dirigida por James Whale, em 1931, que virou clássico do cinema. A representação do monstro na pele de Boris Karloff, com a cabeça quadrada, eletrodos no pescoço e movimentos pesados e desajeitados transformou-se em ícone do terror. Reproduzida em todas as mídias, do cinema aos quadrinhos, a imagem daquele monstro em particular, associada ao nome Frankenstein, persiste no imaginário da população. Poucos se lembram da imagem do cientista, o doutor Victor Frankenstein, o criador, que dá nome à película.

Ainda assim, Victor Frankenstein é o cientista mais evocado da história do cinema. Mais de 80 filmes foram inspirados na figura do homem de ciência que, como o mitológico Prometeu, desafia a sociedade (os deuses do Olimpo) e rouba os segredos do fogo (da natureza, da origem da vida).

A história de Frankenstein continua a provocar intensas emoções no público e os temas que aborda são revisitados em novas e instigantes obras, 180 anos depois de sua primeira publicação e 100 anos após o lançamento da primeira versão cinematográfica. As conturbadas relações entre criador e criatura, com evidentes evocações religiosas, os conflitos éticos da pesquisa na fronteira do conhecimento e as conseqüências da ação do homem sobre a natureza inspiraram muitos autores. E fácil encontrar esses conflitos, por exemplo, em Blade Runner, o Caçador de Andróides, de Ridley Scott, ou em Edward Mãos de Tesoura, de Tim Burton.

A partir do lançamento do Frankenstein de Thomas Edson, o cinema mundial continuaria, por muitos anos, a retratar o cientista como um louco, ou mesmo como um monstro. Mas este é um tema para os próximos posts.

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O cientista no cinema

dezembro 9, 2009

Ao ler o post do Ciência na Mídia sobre o documentário de James Cohen, Homo Sapiens 1900, minha amiga Jane lembrou que já escrevemos e publicamos muitas coisas sobre a ciência e a imagem do cientista no cinema. Mas não aqui, neste blog. Então vamos brincar de memória um pouquinho.

As primeiras representações de cientistas aparecem no cinema no início do século XX, ao mesmo tempo em que se faziam as experiências precursoras de produção cinematográfica, geralmente documentando a realidade. Quem começou essa história foi o cineasta francês Georges Méliès (1861-1938). Desde de 1896, Méliès explorava as possibilidades do novo invento para contar suas histórias. Ele gostava de experimentar. Além de usar luz artificial em suas filmagens, desenvolveu recursos técnicos e de linguagem, com movimentos de câmera e efeitos especiais.

O experimentalismo técnico levou Méliès a ficção científica. Le voyage dans la lune (Viagem à Lua), de 1902, marca a primeira representação de cientistas na história do cinema.

Veja aqui, com narração em francês

O filme começa com uma reunião da Academia de Astrônomos da França. Os cientistas discutem a idéia de uma viagem à Lua.  Engraçado observar como os cientistas da ficção de Méliès são representados como sábios ou bruxos. As roupas dos membros da Academia dos Astrônomos são muito semelhantes às dos magos e feiticeiros dos romances de capa e espada. Seria Merlin a fonte de inspiracão?

Após brigar e jogar artefatos e projetos uns nos outros, os cientistas decidem experimentar a aventura. Trocam as vestes por roupas de expedição e embarcam para a Lua. Ao explorar a superfície, acabam atacados pelas criaturas habitantes do satélite e são levados ao Rei da Lua. Aprisionados, os cientistas conseguem fugir e despencam de uma montanha em direção à terra, onde a cápsula em que viajavam – sim, muito semelhante às cápsulas usadas na missão Apollo – cai no mar para ser resgatada por um navio – outra semelhança com as missões da Nasa.

No início do século XX, Méliès pode ter antecipado equipamentos que seriam utilizados cerca de 50 anos mais tarde. Reparem nas cenas de construção da nave.

Depois de Méliès, a imagem do cientista no cinema mudou muito. Mas isso é assunto para outros posts.


Dois anos de TV Digital no Brasil

dezembro 2, 2009

A transmissão digital do sinal de televisão no Brasil faz dois anos hoje. Minha amiga Jane estava presente na cerimônia de lançamento do sinal digital no Teatro Municipal de São Paulo, em meio a discursos entusiasmados.

De lá pra cá, segundo cálculos do Fórum do Sistema Brasileiro de TV Digital (SBTVD), a população adquiriu mais de 2 milhões de receptores, entre televisores, set-top boxes, celulares e conversores para computador. Muito pouco, para um país que coloca a televisão no espaço mais nobre da vida doméstica e garante audiências fenomenais ao que é oferecido pela telinha.

Mesmo assim, o sinal digital já está implantado em 26 cidades, mais do que previa o cronograma oficial. Alguns países vizinhos, como Argentina, Chile, Peru e Venezuela adotaram a tecnologia nipo-brasileira para suas transmissões digitais e pode ser que o padrão emplaque também no Equador e em Cuba.

Ainda há muita desinformação sobre o que é essa tal de TV digital. Para começo de conversa, não tem nada a ver com a TV paga.  É televisão digital aberta e gratuita. Mas, para ter acesso a ela, as pessoas precisam comprar alguns equipamentos: um conversor, conhecido como set-top box,  ou uma TV com receptor embutido e uma antena UHF. Como tudo isso ainda é muito caro, a expansão não acontece depressa. Vale lembrar que, embora esteja presente em 93% das residências, 80% dos aparelhos de televisão no Brasil são de 14 polegadas.

Mas minha amiga Jane está mesmo interessada no conteúdo que é transmitido pelo sinal digital. Será que mudou muito? Alguém reparou?

As telenovelas, os programas de maior audiência da TV aberta,  têm imagem e som cada vez mais perfeitos. E continuam a recontar mais ou menos as mesmas histórias. Os telejornais estão mais bonitos, com novos cenários e infográficos em três dimensões, mas ainda assim, perdem audiência para os reality shows. E o proselitismo religioso toma conta dos espaços comercializados pelos supostos “donos” das emissoras que, na verdade, são concessões públicas.

Jane gosta de ciência, como todos vocês sabem. Acompanha tudo o que as emissoras abertas exibem em ciência, tecnologia, educação e meio ambiente. Ela pode dizer que hoje tem mais ciência na TV aberta do que no ano passado. Além do novo Globo Universidade,  da Rede Globo, exibido na madrugada de sábado, na sequência do Globo Ciência e Globo Ecologia, a TV Brasil, também inaugurada em 02 de dezembro de 2007, comprou programas internacionais – alguns muito bons como Ciência Nua e Crua – e elevou para oito o número de horas semanais de programação científica à disposição do público. Mas ainda não conseguiu produzir ou comprar um só programa que divulgue a ciência que se faz no Brasil.

Dois anos de televisão digital. Dois anos de TV Brasil. Mais do mesmo em todos os canais.


E por falar em Carl Sagan…

julho 12, 2008

Minha amiga Jane se lembra bem da época em que poucos cientistas tinham coragem de falar com a imprensa. A maioria dos pesquisadores temia ter seu trabalho distorcido, grosseiramente simplificado, ou receava ser criticado por seus pares ao dar entrevistas ou, principalmente, aparecer na televisão.

Carl Sagan era diferente. Não só falava quando procurado, mas também acreditava na popularização da ciência e na importância da participação dos cientistas nesse processo. Além de escrever diversos livros de divulgação científica, apresentou a série Cosmos, da BBC, uma das precursoras do gênero na televisão mundial.

O resultado de uma pesquisa publicada esta semana (11 de julho) na Science dá mostras de que esse tabu está sendo progressivamente quebrado. Um grupo de estudiosos da comunicação liderado por Hans Peter Peters ouviu 1300 cientistas de cinco países (EUA, Inglaterra, França, Alemanha e Japão) sobre suas relações com a imprensa. A maioria dos cientistas ouvidos (57%) considera positiva sua última experiência com a mídia e somente 6% ficaram insatisfeitos com os resultados da divulgação de seu trabalho.

O estudo indica que os cientistas finalmente percebem a importância da imprensa no reconhecimento público da pesquisa científica e, ainda, que as relações entre cientistas e jornalistas são mais respeitosas e profissionais.


Saudade de Carl Sagan

julho 10, 2008

Um extraterrestrre, recém-chegado à Terra – examinando o que em geral apresentamos às nossas crianças na televisão, no rádio, no cinema, nos jornais, nas revistas, nas histórias em quadrinhos e em muitos livros – poderia facilmente concluir que fazemos questão de lhes ensinar assassinatos, estupros, crueldades, superstições, credulidade e consumismo. Continuamos a seguir esse padrão e, pelas constantes repetições, muitas das crianças acabam aprendendo essas coisas. Que tipo de sociedade não poderíamos criar se, em vez disso, lhes incutíssemos a ciência e um sentimento de esperança?

(Carl Sagan, 1996)