As meias, os meios e as mídias do Ministro

novembro 22, 2009

Evoé! Evoé! Evoé! clamava José Celso Martinez Corrêa ao saudar, com uma taça de vinho tinto, o início do Seminário Internacional do Fórum da Cultura Digital Brasileira.

Baco e outros deuses e orixás atenderam ao chamado e estiveram conosco nos últimos quatro dias. Circularam pelos galpões da Cinemateca Brasileira. Fizeram fervilhar nossos cérebros. Facilitaram a conexão e iluminaram os contatos, recados, carinhos, pensamentos e ideias que trocamos. Todo mundo junto e remixado. Seres humanos resignificados. Com música. Muita música.

Vídeos, fotos e textos foram disparados rede afora e incluíram milhares de pessoas nas conversas dos auditórios. Geraram terabytes de informações. Um importante acervo multimídia sobre o processo de construção de uma política pública para a cultura digital brasileira nos próximos anos.

O Fórum deixa importantes definições e uma agenda política para o MinC, com tarefas hercúleas como o marco legal da Internet; a discussão da Lei do direito autoral; um plano nacional de banda larga e outro para digitalização de acervos.

No encerramento do “espaço físico do ciberespaço”, como Cláudio Prado nomeou o Fórum, o Ministro da Cultura usou todos os meios disponíveis, mostrou as meias e falou mal da televisão aberta. Também deu o mote para o melhor trocadilho do evento, outro de Cláudio MacLuhan Prado, super tweetado no mundo virtual: “a meia é a mensagem”.

O Ministro, a meia, os meios, a mídia, a massa, a maldita televisão.

O que fica é a memória. Aquilo que é preciso organizar e preservar para as futuras gerações. A prova irrefutável do processo participativo de construção da política que queremos para a cultura digital. Não podemos permitir que se perca na pressa, ou que seja engolida pela pressão eleitoral.

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TV ainda está fora da Memória Digital

novembro 20, 2009

O conceito de Cultura Digital ainda não está inteiramente consolidado e reconhecido, seja no ambiente acadêmico ou no social. Uma das missões dos participantes do Fórum da Cultura Digital Brasileira é debater esse conceito como fundamento para políticas públicas, que serão, necessariamente,  inclusivas. Tudo muito bacana, moderno, interativo.

Minha amiga Jane veio comigo a São Paulo para o Seminário Internacional do Fórum da Cultura Digital Brasileira. Chegamos com grande expectativa, já que o encontro acontece nas dependências da Cinemateca Brasileira, um dos ícones do setor audiovisual no país.

Estamos interessadas, principalmente no eixo temático da Memória, um dos cinco que aglutinam as discussões. Os outros, também muito instigantes, são: Infraestrutura da Cultura Digital,  Arte Digital, Economia da Cultura Digital e Comunicação Digital.

O debate sobre Infraestrutura, no primeiro dia, foi quente e a catarse que abriu oficialmente o Seminário foi protagonizada pelo autor, ator e diretor de teatro Zé Celso Martinez Corrêa. Inesquecível. Tudo isso só aumentou nossa ansiedade com o Seminário de Memória desta quinta-feira.

Angela Bettencourt, da Fundação Biblioteca Nacional e Edson Gomi, da Brasiliana, biblioteca digital da USP, falaram dos desafios técnicos da digitalização de seus acervos.

Jomar Silva, da ODF Alliance, lembrou a necessidade de usar padrões abertos para a preservação da memória. Alertou que textos .doc podem não ser lidos daqui a 10 anos e que os vídeos que você faz em MPEG4 não são livres, poderão estar condicionados a pagamento a qualquer momento.

Dalton Martins apresentou o trabalho do Weblab, na busca de promover a transformação social com o uso da tecnologia. Por último, Geber Ramalho, com seu delicioso sotaque pernambucano, cunhou o conceito de  “gameficação” para propor que bibliotecas promovam experiências lúdicas e interativas para atrair o público.

Os debatedores eram todos feras.  O trabalho que realizam é extremamente louvável.  Mas a reflexão sobre a tal Memória Digital propriamente dita, não foi além do texto.

Esperávamos poder conhecer muito mais e trocar idéias sobre as questões que impedem ou dificultam a preservação e digitalização dos acervos audiovisuais. A obsolescência dos equipamentos de reprodução, a inexistência de cadastros de conteúdos, possíveis padrões e mídias de preservação, para citar alguns exemplos.

Nem mesmo a experiência da TV Cultura de São Paulo,  que já digitalizou mais de 6.000 horas de audiovisual em suporte Quadruplex, obteve espaço no debate sobre Memória.

Mas a maior de todas as frustrações foi estar na Cinemateca Brasileira e não ter acesso ao trabalho de digitalização que está sendo feito pela instituição.

O debate sobre a memória da televisão pública brasileira, que nunca teve recursos suficientes para manter seus acervos e promover a renovação dos suportes onde estão acondicionados, vai ter que aguardar outros fóruns. Que venham logo, e que tragam investimentos e tecnologia, antes que nada mais exista para ser recuperado.